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REFINANDO A LÍNGUA – PALAVRAS CRUZADAS: A ETERNA BATALHA DO HOMEM

REFINANDO A LÍNGUA – PALAVRAS CRUZADAS: A ETERNA BATALHA DO HOMEM
08 novembro
14:50 2013

Palavras Cruzadas: a eterna batalha do Homem

http://www.dreamstime.com/royalty-free-stock-images-crossword-love-romance-image1589569Música e língua portuguesa é uma mistura que sempre resulta em um bom caldo. E é esse borogodó que eu vou usar para fazer uma resenha mostrando, ao mesmo tempo, aspectos da nossa língua. Escolhi a música “Palavras cruzadas”, de Oswaldo Montenegro, por ser simples e de uma beleza lapidável sem igual. 

O título da música: é o tema, assunto que vai ser usado com referência para o desenvolvimento da letra. Através deste  título, é possível imaginar várias coisas, e a primeira que veio a minha cabeça foi aquele jogo de memória muito popular que encontramos em revistas e jornais. Com as dicas disponíveis, preenchem-se os quadradinhos das respostas. Conforme as respostas vão aumentando, as respostas mais difíceis vão ganhando mais dicas, facilitando a solução. Quando o jogo é difícil, as palavras são muitas, longas e não se cruzam. 

Mas não era do jogo de memória que eu queria falar. Usei apenas para fazer um paralelo com a mensagem da letra da música. Na verdade, o que se propõe é cantar sobre as palavras que não se encontram quando o diálogo entre as pessoas não consegue convergir e não se chega a um acordo. Mas também não era sobre acordos que eu queria falar, é sobre poesia.

Palavras Cruzadas

Data de um certo dia

A nossa primeira palavra

A palavra “data”, usada no início do primeiro verso, não tem função de substantivo, mas sim de verbo.

“Um certo dia” não determina o tempo cronológico, mas mostra que aconteceu de dia, período em que as coisas acontecem de forma clara. Então, “data de um certo dia” mostra que  já faz um tempo que o primeiro contato aconteceu. E também sabemos que é um relacionamento por causa do uso do pronome possessivo “nossa”. 

 E o vento da noite veio

Esfriar os sonhos que ousamos ter

O eu-lírico é a voz que fala no texto, poema ou prosa. Usa-se o termo “eu lírico” porque nem sempre o que se expressou – sentimentos, ideias, emoções – são do autor.  Aqui, neste caso,  o eu-lírico contrapõe e começa com “E o vento da noite veio”. Isso já é uma introdução à dificuldade, à questão que vai causar uma mudança naquela primeira situação que ele colocou no início. 

Antítese é uma figura de linguagem muito usada pelos poetas barrocos e até hoje serve como solução quando queremos expressar sentidos opostos. É o caso de dia/noite.

“Esfriar os sonhos que ousamos ter” remete à ideia de que o relacionamento estava bem, mas agora não mais. O verbo esfriar determina essa nova situação. Sonhos são planos e projetos nem sempre possíveis, mas, dentro de cada ser, existe sim a possibilidade de serem concretizados, e é nessa esperança que todo apaixonado se apega.

“Ousamos ter” , o verbo conjugado na primeira pessoa do plural do caso reto (nós, sujeito oculto) mostra que os sentimentos e sonhos eram compartilhados.

 Longe de ser palpável

A nossa liberdade era a primeira

Das coisas que floresciam

Em meio a outras

Que iam nascer

Muitas vezes a poesia torna-se complexa e desanimadora porque exige certas manipulações na hora de se ler e compreender. Todo esforço, paciência ou mesmo uma veia literária por parte de quem lê é muito importante. Para ler poesia, é necessário estar imbuído de alma e coração.

No caso desta parte da canção, vou inverter a sequência dos versos para que a compreensão seja mais fácil. Fica assim: Em meio a outras que iam nascer, a nossa liberdade era a primeira das coisas que floresciam. 

Apesar de ser a primeira das coisas que floresciam, a liberdade agora estava, também, longe de ser real. O adjetivo palpável (acrescentado a “longe de ser”) caracteriza a liberdade como uma coisa que na verdade não existe entre eles. Mesmo nos relacionamentos mais modernos e abertos, há horas em que a liberdade é perdida quando o sentimento de compromisso se faz necessário.

“Em meio a outras que iam nascer” denota esperança, uma outra alusão a sonhos.

 Como se fosse novo

A gente olhava o nosso coração 

Doido como se fosse 

Como se ainda houvesse algum lugar

 Licença poética é uma permissão que os poetas e compositores se dão para extrapolar o uso da língua. Assim, fica mais fácil passar todo o sentimento ou ideia que se quer. Neste trecho sentimos a falta da pontuação, principalmente da vírgula, para podermos compreender melhor. Mas nada é perdido. Este texto é uma letra de música, então recorremos à música cantada para tentar descobrir qual é o substantivo (palavra com que se denomina um ser ou um objeto, uma ação, um estado, uma qualidade) que está sendo adjetivado (caracterizado). Ouvindo a música, percebemos que o substantivo “coração” é adjetivado como “doido”. 

Já não podemos ter a mesma certeza com “novo”. Tanto “a gente” como “nosso coração” podem ser adjetivados como novo. Mas como  “nosso coração”  já foi dado como doido, tendemos a achar que “a gente” é que é novo. Que doideira! Creio que “olhar o coração” seja uma forma de dizer “dar asas aos sentimentos”.

Então, entendemos assim: como se a gente fosse jovem e como se houvesse algum lugar para o amor, a gente olhava o nosso coração como se ele fosse doido (dotado de coragem para sonhar e arriscar). 

 Louca a nossa vida

É como a do planeta: viajar

longe a nossa estrela

É como se houvesse uma canção lá

 Encontramos agora a mesma situação do trecho anterior. Ouvindo a música, arrisco dizer que o eu-lírico chega à conclusão de que “a nossa vida” é igual a do planeta: viajar. Planetas viajam, se movimentam no tempo e no espaço e fazem suas próprias leis. 

E a “nossa estrela”, que está tão longe, irradia uma canção. Canção é, por definição, uma poesia cantada. Tomando por estes termos, definimos “a nossa estrela” como um lugar onde o sentimentos prevalecem. 

 Bem, espero que tenham gostado. Toda poesia é passível de infinitas interpretações, fiz esta tentando mostrar alguns aspectos da língua. Amo canções e acho que as palavras – cruzadas ou não – são o que um dia alguém classificou como “produtos coletivos da interação social, instrumentos essenciais pelos quais os seres humanos constituem e articulam o seu mundo”.

 

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