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PROJETO EM RISCO: BELGA COM PROJETO SOCIAL NO VALE DO MUCURI PODE SER DEPORTADA

PROJETO EM RISCO: BELGA COM PROJETO SOCIAL NO VALE DO MUCURI PODE SER DEPORTADA
07 junho
16:00 2017

No município de Águas Formosas, ela criou o projeto social Associação Vale Viver de Promoção Social, que agora corre risco de acabar, já que a belga pode ser deportada; são 180 famílias ajudadas

Natália Oliveira e Juliana Baeta, jornal O Tempo

Ela preferiu deixar a comodidade de sua vida na Bélgica, para arregaçar as mangas no Vale do Mucuri, em Minas Gerais

Ela preferiu deixar a comodidade de sua vida na Bélgica, para arregaçar as mangas no Vale do Mucuri, em Minas Gerais

Desde 2003, quando desembarcou no Brasil, a belga Greet Fleurackers, de 56 anos, mudou a realidade de cerca de 180 famílias de uma das regiões mais pobres de Minas Gerais, o Vale do Mucuri, mais precisamente na cidade de Águas Formosas. No município, ela criou o projeto social Associação Vale Viver de Promoção Social, que agora corre risco de acabar, já que a belga pode ser deportada.

“Meu visto foi prorrogada mais vezes do que a lei permite e vai vencer dia 07 de setembro deste ano. Há anos que estou querendo um visto permanente, e sempre foi negado pela Polícia Federa”, conta Greet Fleurakers. A reportagem de O TEMPO procurou a Polícia Federal por meio da assessoria de imprensa, porém nenhum retorno foi dado sobre o caso da Belga.

Quando chegou à cidade, as crianças já ganharam o coração da estrangeira e ela, que já era envolvida em vários projetos sociais, resolveu entregar seu empenho a Águas Formosas, mas se ela for deportada, essas 180 famílias ficarão desamparadas. “O projeto vai acabar, porque sem eu aqui, a Vale viver da Bélgica (que apoia o projeto financeiramente) não tem mais controle sobre como será gasto o dinheiro”, lamenta Greet.

Embora ainda tenha esperança de conseguir permanecer no Brasil, Greet lamenta por ainda não ter conseguido resolver seu problema. É um peso que nunca sai das minhas costas, sempre vivendo na insegurança como vai ser. Cheguei no Brasil há 14 anos, sou voluntária, trabalho todo dia no projeto. É minha vida, e gosto muito porque dá resultados”, conclui.

“Elas roubaram meu coração”

444Ao chegar no Vale do Mucuri, Greet se afeiçoou imediatamente às crianças dali. “O que me fez chorar muito e até hoje faz, é a situação das crianças daqui, que ficam na rua, sem roupa, sem comida, muitas delas entrando no mundo das drogas desde muito cedo, coisa de 8 anos de idade. Elas roubaram meu coração”, conta.

O primeiro passo que desenvolveu para fazer a diferença foi prover a merenda para os pequenos e inserir vegetais na alimentação deles. “Na comunidade, quando tinha comida em casa era arroz, feijão ou macarrão. As crianças não conheciam verduras e muitas delas tinham problemas de saúde como vermes e problemas de vista devido a falta de nutrientes e vitaminas no organismo. Começamos a fazer sopa com vegetais bem raladinhos, para elas não estranharem”, lembra.

O que começou como uma medida paliativa para nutrir e alimentar os pequenos se tornou o carro-chefe do projeto. Hoje, a Associação Vale Viver ajuda 130 crianças de Águas Formosas e, consequentemente, as suas famílias. “Eu acho que o objetivo sempre foi melhorar a vida das famílias da cidade, por meio das crianças. São elas que precisam estudar para garantir um futuro melhor a elas e a seus familiares. O projeto consiste também em conversar com os pais dessas crianças e orientá-los a mantê-las na escola. Explicamos a eles a importância de assegurar o futuro dos pequenos e também esclarecemos a eles os direitos que eles têm. Muitos nem sabem o que é isso, apesar de serem cidadãos brasileiros”, conta.

“Algo que contribuiu para a melhoria dessas famílias foi a criação do bolsa-família e é também por isso que lembramos aos pais a necessidade de se manter as crianças na escola a fim de assegurar o benefício”, completa Greet. Para ela, as necessidades básicas como alimentação e vestimenta não se sobrepõe à necessidade essencial de solucionar o problema: “não é só dar uma cesta básica e uma roupa, apesar disso também ajudar bastante. Mas quando você tem que mudar alguma coisa, você tem que começar pela raiz. Como temos muitas crianças aqui, conseguimos a mudança por meio delas”.
 
O projeto

A Associação Vale Viver de Promoção Social, como o nome já diz, tem por objetivo mostrar às famílias de Águas Formosas que vale a pena viver, mesmo com recursos escassos e dificuldades. “Algumas pessoas ali realmente já foram tomadas pela depressão, pela desmotivação. A pobreza acaba gerando falta de perspectiva, de esperança em um futuro melhor”, explica Greet.

Com a atuação da ONG, as várias famílias da cidade recebem uma cesta básica todo mês e 130 crianças ganham alimentação de segunda a sábado. Muitos alimentos e materiais escolares ou de higiene pessoal são adquiridos com o dinheiro de doações vindos diretamente da Bélgica. Os voluntários de lá realizam visitas anuais à cidade a fim de conhecer as pessoas que ajudam e se mobilizam para conscientizar ainda mais belgas e informá-los sobre sobre a cidade mineira, localizada a cerca de nove mil quilômetros de distância da Bélgica.

Além disso, o projeto ensinou a muitos moradores de Águas Formosas como manter uma horta e, desta forma, prover vegetais para complementar o cardápio. “Tínhamos uma horta muito grande na comunidade, mas precisamos do espaço para construir uma quadra para os meninos. Mesmo assim, o conhecimento ficou e foi disseminado. Vizinhos passaram para vizinhos como cuidar das plantas”, conta Greet.

A Vale Viver também oferece cursos para crianças, adolescentes e adultos da comunidade, como aulas de informática, cursos de cabeleireiro e manicure, aulas de teatro, dentre outros. “É muito gratificante ver os meninos crescendo e andando com as próprias pernas. O meu primeiro aluno de inglês, por exemplo, hoje, é professor do idioma em uma escola particular de Betim e pretende levar toda a família, que assim como ele é de Águas Formosas, para lá. É ele que sustenta os familiares, o que me deixa muito orgulhosa”, disse.

Outro filho da Vale Viver é o projeto Criança Canhota, um movimento de ocupação artística formado por alunos de uma oficina de teatro que percorre as cidades do Vale do Mucuri ministrando oficinas, levando cinema ao ar livre e disseminando o conhecimento que tiveram durante a vivência na associação.

Apesar das vitórias e das vidas transformadas, Greet lamenta que algumas crianças, mesmo com a ajuda da ONG, acabam entrando no mundo das drogas e da criminalidade. “Infelizmente alguns viram traficantes ou morrem, o que me deixa extremamente triste. Só de falar eu fico arrepiada. Mas nós fazemos o que podemos para tirá-las deste caminho que acaba sendo uma das alternativas para se escapar da pobreza”, conta.

O sorriso da belga volta a se iluminar ao falar da quantidade de pessoas que saem do projeto com uma função, como a de ator, ou que vão trabalhar em casas de família após aprenderem os afazeres domésticos como voluntários na ONG. E o mundo também volta se iluminar e fica um pouquinho melhor com histórias como a de Greet, que saiu de tão longe para fazer a diferença na pequena comunidade de Águas Formosas.

Para ajudar

A Vale Viver acabou de inaugurar um pequeno espaço para uma biblioteca em Águas Formosas, e passa agora a contar com doações, não apenas de alimentos, materiais de higiene e de limpeza, roupas e dinheiro, mas também de livros. (Matéria transcrita do jornal O Tempo, de BH)

Para entrar em contato e saber como ajudar, o e-mail é vale-viver@hotmail.com e o telefone é (33) 3611-1062.

Na internet, as páginas são:
comartevaleviver.weebly.com/
facebook.com/pages/Associacao-Vale-Viver-de-Promocao-Social
Conheça também o projeto Criança Canhota lendo o artigo de Júlio Assis em O TEMPO, e também por meio da página facebook.com/CriancaCanhota

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